Uma canção sobre o fim último das coisas

(Samaumeira - Fonte: Blog Repiquete)
O prefeito decretou a derrubada da velha samaumeira.
Homens com seus machados, máquinas com pás gigantes,
repórteres com suas equipes:
todos esperavam pôr abaixo tão incômodo empecilho do progresso.
A população vizinha da árvore imponente
ensaiou um protesto e emocionada fechou-a em um abraço.
Uma mãe de santo trouxe oferendas e cantorias.
Crianças chorando se agarravam às saias das mães.
Enquanto o prefeito, indiferente, discursava,
os homens afiavam seus reluzentes machados,
máquinas rugiam feito monstros famintos,
jornalistas buscavam o melhor ângulo.
Ainda que os circunvizinhos da bela árvore
permanecessem em seu abraço circundando-a
e a transida mãe-de-santo evocasse seus orixás
nada parecia amolecer o coração do Poder.
Não se levava em conta o valor da sombra benfazeja,
o doce aconchegar dos pássaros em seus galhos,
o mais puro ar que dela exalava,
nem a inegável contribuição à vida no planeta.
Apenas sobressaía das palavras do Poder
o atraso no desenvolvimento arquitetônico da cidade
e os empregos que deixavam de existir com as obras
do mais belo centro comercial já visto naquelas plagas.
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