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Blog do Pepê Mattos
 


 
 

Uma canção sobre o fim último das coisas

(Samaumeira - Fonte: Blog Repiquete)

 

O prefeito decretou a derrubada da velha samaumeira.

Homens com seus machados, máquinas com pás gigantes,

repórteres com suas equipes:

todos esperavam pôr abaixo tão incômodo empecilho do progresso.

 

A população vizinha da árvore imponente

ensaiou um protesto e emocionada fechou-a em um abraço.

Uma mãe de santo trouxe oferendas e cantorias.

Crianças chorando se agarravam às saias das mães.

 

Enquanto o prefeito, indiferente, discursava,

os homens afiavam seus reluzentes machados,

máquinas rugiam feito monstros famintos,

jornalistas buscavam o melhor ângulo.

 

Ainda que os circunvizinhos da bela árvore

permanecessem em seu abraço circundando-a

e a transida mãe-de-santo evocasse seus orixás

nada parecia amolecer o coração do Poder.

 

Não se levava em conta o valor da sombra benfazeja,

o doce aconchegar dos pássaros em seus galhos,

o mais puro ar que dela exalava,

nem a inegável contribuição à vida no planeta.

 

Apenas sobressaía das palavras do Poder

o atraso no desenvolvimento arquitetônico da cidade

e os empregos que deixavam de existir com as obras

do mais belo centro comercial já visto naquelas plagas.



Categoria: Poesias
Escrito por pepe mattos às 12h11
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Uma canção sobre o fim último das coisas (cont.)

 

Foi quando a noite já quase descia cobrindo tão dantesca cena,

que a chuva começou a cair impiedosamente;

prefeito, homens, jornalistas deixaram seus discursos,

machados, máquinas e equipamentos de filmagem.

 

Contudo, resistentes, feito hera que se apega ao muro

os cidadãos continuaram abraçados à samaumeira.

Raios riscavam os céus na direção dos homens

que a queriam no chão, lenha pra fogueira.

 

Na noite que se seguiu fortes ventanias

derrubaram árvores, postes de luz elétrica,

alguns prédios públicos e casas da atônita comunidade

e o desespero fez morada na alma do povo.

 

Na manhã seguinte, o prefeito baixou novo decreto

declarando de utilidade pública e patrimônio cultural

a inexpugnável samaumeira, cujo valor inestimável

a natureza e o amor desses cidadãos o fizeram ver.

 

Era um gesto tardio e desesperado:

somente a samaumeira foi poupada da fúria da natureza.

 

Prefeito, funcionários, jornalistas e os bravos cidadãos

passaram a se abrigar debaixo dos venturosos galhos da velha árvore

até que toda a cidade fosse reconstruída.

 

Todos que passam naquela Praça da Samaumeira

dedicam um momento de seu tempo para reverenciá-la;

Sabem, que um dia, a cobiça pelo progresso desmedido

quase destruía a bela e sábia árvore junto com toda a pequena cidade.

 

Do alto de sua imponente e ensolarada copa

o sol dispara raios de luz, feito bênçãos dos céus caídas.

sobre homens que num repente de insanidade e desamor

sonharam em pôr abaixo tão relevante obra da natureza.

 

070209



Categoria: Poesias
Escrito por pepe mattos às 12h06
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