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Conto



 
 

Inquietude

Escrevi este texto por volta de 2002. Não sei por qual motivo usei uma protagonista feminina, mas acho que era porque na época estava lendo um monte de autoras que iam de Lygia Fagundes Telles a Virginia Woolf, passando pelas inevitáveis Clarice Lispector, Ana Miranda, Elizabeth Bishop e Florbela Espanca.  

 

Inquietude

 

E então, me vem aquela sensação esquisita que não tem nome. Porque todas as coisas nomeadas me fogem e fica só essa que não tem nome nem hora certa para aparecer. E dá um grande vazio e uma vontade imensa de preencher este vazio com estas lágrimas invisíveis que teimam em ficar neste espaço lacrimal (deve ser assim que chamam para esta bolsa que existe entre os olhos e a membrana que os protegem). Ora, acontece que este espaço lacrimal me faz seu refém à medida em que acredito nesta maldita situação de dependência por sinal inusitada. Não só inusitada, mas absurda, surreal. Enfim, ilícita. E não há a mínima possibilidade de que estas considerações venham a diminuir o impacto causado por esta inquietação, ainda sem nome.

Também queria dizer que tudo isso é sem sentido e me deixa assim sem movimento e sem raciocinar direito. É como uma dor que penetra o corpo inteiro, comprimindo os pulmões, deixando uma acidez no estômago. Uma ferrugem se instala no paladar e as paredes bucais parecem lixa onde uma áspera língua passeia sua aquosa superfície. E em meio a tudo isso ainda conto a meu marido que quando vinha para casa aconteceu de eu dar uma carona a uma descuidada senhora, já de idade, e seu marido que parecia sofrer de problemas respiratórios. Estava um tempo meio chuvoso e numa esquina deparei com ela fazendo sinal típico de quem esperava por um táxi. Mesmo assim estacionei junto a eles. Disse-me: “Estou precisando ir lá na Marcílio Dias, entre Leopoldo Machado e Jovino Dinoá”. Como ia para aqueles lados deixei-os entrar. Não conversamos durante o trajeto o tempo todo. Ela demonstrou total domínio da situação. Parecia estar a bordo de um táxi de verdade onde fala-se o mínimo ou nada com o motorista. Verificou na bolsa a carteira porta-cédulas. Tirou uma nota de dez reais. O velho resmungou qualquer coisa e ela acalmou-o dizendo que já, já chegariam ao seu destino.

Fiquei a conjeturar se realmente ela pensava estar num táxi e achei que sim já que havia tirado até o dinheiro para pagar a “corrida”. Sorri, um tanto curiosa com o que ia ocorrendo, esquecendo por alguns momentos aquilo que me perseguia a alma e, de quebra, o corpo.

Chegando no perímetro que a senhora mencionara ela apontou para uma casa de muro branco onde havia um portão de grades vermelhas. A chuva já não mais caía forte e a tarde parecia uma casa grande de teto cinza. Os dois desceram do carro com muito cuidado e após fechar a porta com certo estrondo, a senhora perguntou-me o que eu já esperava: “Quanto custa?”. A muito custo fiz-lhe ver que não era carro de praça e que portanto não custava nada. Só então ela procurou com o olhar o taxímetro e alguma placa de táxi que desfizesse minhas argumentações. Não encontrando se desfez em desculpas e pedindo que justamente por este motivo eu aceitasse os seus dez reais. Recusei amavelmente. Despedi-me dos dois seguindo finalmente para casa trazendo como sobrecarga esta inquietação que me sai mais caro quando dela me dou conta.

 

 

 

 

 

©                  2002 Pedro Paulo Matos Ribeiro

 

 



Escrito por pepe mattos às 23h36
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Fim sem começo

 

“Li em algum lugar ou alguém disse que ‘o tempo tem resposta pra tudo’”... Era um adeus simulado, desses que não se quer dizer ou se quer sim dizer mas não que fosse desse jeito... “E você não está triste?”... “Bem, não sei como responder porque, na verdade, nem chegamos a começar esse, esse, sei lá, esse caso...”... “É verdade...”.... Ela remexia a estante de Poesia... “Você que é poeta, já leu esse?”... “Bem, cê sabe que esse negócio de poeta é meio complicado porque eu entendo isso como um meio de ganhar a vida e, no meu caso, não ganho nada além de um ou outro olhar compadecido de conhecidos e outros nem tanto”... “Não seja modesto. Li suas poesias em alguns sites e no seu blog e acho quase todas muito, como diria, lindas mesmo”... “Bem, obrigado. Algumas gosto muito. Olha, tenho que ir”... “É, eu também. Está ficando tarde”... “Sabemos que é um adeus e...”... “Não precisava dizer isso. Já que não houve um início, não tinha razão de ter um fim, né mesmo?”... “Tá vendo? E você ainda diz que o poeta sou eu...”... “Não disse nada demais, só o que eu acho disso tudo”...”E o que você acha que poeta faz? Escreve o que acha de determinada coisa! Simples...”... “Você parece simplificar tudo!”... “Acho que não vale a pena complicar mais nada. A vida já anda tão complicada”... O atendente, sem ser solicitado, trouxe dois cafezinhos... “Obrigado”, eles disseram... “Olha, imaginei muita coisa na minha vida, mas jamais passou pela minha cabeça que terminaria um caso numa livraria. Aliás, nunca tinha entrado aqui. Estava sempre com pressa”... “É, sempre tive vontade de entrar também, mas não achava tempo”... “Bom, agora de verdade, tenho que ir”... “Olha, apesar de tudo, foi bom”... “É, concordo com você”...”Vê se não vai usar isso num romance”... “Fique tranqüila, sou poeta. O máximo que faria seriam uns versos”... “Vou acreditar em você”... “Leve o livro que me mostrou”... “Alguma sugestão?”... “Fragmentos de um inventário”... “Por quê?”... “Lembra um epitáfio”...



Escrito por pepe mattos às 10h24
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