Ainda lendo "O Fantasma Sai de Cena"...

...ainda lendo "Fantasma sai de cena"... O protagonista Nathan Zuckerman descreve sua surpresa com as pessoas e os celulares de uma forma tão dilacerante que leva-nos a nos perguntar se conseguiríamos viver algum dia sem eles e a resposta é que só nos resta duas opções: ou nos apegaríamos a toda nova invenção tecnológica como se com isso adquiriríssemos conhecimento e status ou abandonássemos esses trecos e voltássemos a sermos simples seres humanos sem a possibilidade de estarmos plugados a um mundo cada vez mais tecnológico e menos humanos... Provavelmente, optaríamos pela alternativa número 1...

"...O que acontecera nesses dez anos que agora havia tanto a dizer - e com tanta urgência que não dava para esperar? Aonde quer que eu fosse, sempre havia alguém caminhando em minha direção falando ao telefone e alguém atrás de mim falando ao telefone."... "Para mim, isso tinha o efeito de fazer com que as ruas se tornassem cômicas e as pessoas, ridículas. No entanto, havia também um lado trágico nisso. A anulação da experiência da separação teria inevitavelmente uma conseqüência radical. Qual seria ela? Você sabe que pode ter acesso à outra pessoa a qualquer momento, e se isso se torna impossível você fica impaciente - impaciente e zangado, como um deusinho idiota"...

"... Mesmo assim, era impossível me conter: eu não conseguia compreender como alguém podia imaginar que levava uma vida humana andando pela rua falando ao telefone metade do tempo que estava acordado. Não, essas engenhocas provavelmente não promoveriam a reflexão junto ao grande público."

...olhando as moças bonitas na rua...

"...as mulheres se vestiam agora, o decote habitual das camisetas, o modo como as roupas femininas eram desenhadas, e embora elas andassem com saias apertadas, shorts curtíssimos, sutiãs sedutores e os ventres de fora, dando a impressão de que estavam disponíveis, na verdade não estavam disponíveis coisa nenhuma - e não apenas para mim."

...pense, amigo machão, você chegando no ocaso da vida, enfrentando problemas de próstata, infecções intestinais, incontinência urinária levando a uma abstinência sexual forçada, presenciar um mundo moderno em que as coisas acontecem numa velocidade estonteante e vendo moiçolas estonteantes á frente e um desejo subir-lhe e não ser possível mais nada a não ser o próprio ato de se desejar...

Contudo, Roth é muito mais que isso... Sua descrição de encontros fictícios com Jamie Logan, a bela e inteligente esposa de Billy Logan - a quem Zuckerman propõe a troca de casas por um ano - beira a um tête a tête com pitadas de cantadas (dele) e de fina ironia (dela)...

Vou parar por aqui, pois não quero adiantar o final desse "drama intenso e pungente" que só ratifica o "incansável compromisso de Roth com a literatura", conforme se lê na orelha do livro...

Recomendo...