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Blog do Pepê Mattos
 

Poesias



 
 

O silêncio das crianças

Talvez por noites não consigamos sonhar.

Pelo medo de perdermos nossa humanidade, não possamos fechar os olhos.
Com a bala da impotência explodindo em nossas lembranças, não assistiremos os telejornais.
Ou, paradoxalmente, justamente por isso não possamos desgrudar os nossos olhos estupefatos dos monitores.
Talvez, nas vezes infinitas que nos lembremos de tal cena dantesca, nossas lágrimas não parem de rolar.
Entre cada saída de casa, olhemos com mais atenção nossas escolas cheias de brasileirinhas e brasileirinhos.

E ao passarmos em frente a cada uma delas, vislumbremos em cada vulto que acharmos suspeito um assassino em potencial.

Em cada estudante correndo nossos corações disparem e gritemos por socorro.


Talvez, talvez...


Nesse momento, antes que qualquer talvez prevaleça, pode já ser tarde.
Não há razão no ato desolador de nos vermos sempre chorando por algo que não tinha razão de ser.


Nesse mundo desarrazoado, onde lamentamos a morte prematura de nossas crianças, não há tempo para mais e mais lamentações.
Não, não há...


O que colheremos no futuro se assassinamos o presente?
Onde estamos que não conseguimos agir?
O que sonharemos, se nossos sonhos estão sendo mortos?
Que perguntas poderemos ainda fazer? Ou pra quem? Ou pra quê?
Que o silêncio das crianças nos responda...



Escrito por pepe mattos às 02h58
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O tempo do nosso Tempo escorre pelas nossas mãos

O ruído dos ponteiros do relógio - somente audível
para quem é companheiro involuntário
da solidão - penetra surdamente
nos confins da memória
enquanto imagens teimam em se fazer presentes
mesmo quando os olhos
permanecem fechados.

Nas ruas, carros passam apressados
e barulhentos quebrando o silêncio
necessário para que o sono – finalmente! –
chegue.

Não há mágoa no fato unilateral
da decisão proferida;
nem tempo pra sequer
se pensar em mágoa.

Inexorável, o relógio marca na alma
o Tempo das Coisas Indo:
o tempo dado ao Tempo
dilacera esperanças
e amordaça a voz
a explodir em adeuses não ditos...



Escrito por pepe mattos às 02h53
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Destino

 

(1855)

 

 

 

Minha poesia

é algo que não domino.

 

Algo que, mesmo preso

em caixas de Pandora,

caixas-pretas ou caixões,

sempre se espraia

feito miúdas folhas secas

para além das cercas.

 

Vez ou outra

eu a encontro amontoada

nas calçadas

esperando uma pá

que abrevie sua não-existência.



Escrito por pepe mattos às 20h40
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Brincando de deus

 

(Dreams, 1990, Akira Kurosawa)

 

Sonhar vazio

é imaginar uma aquarela

em preto e branco,

todas as cores

compondo um quadro

no qual dispersas

na tarde

as nuvens

nidificam

no horizonte.

 

Pode-se até mesmo,

em contraste

com a tênue realidade,

cristalizar-se mentiras

como se fossem

sonoras verdades.

 

Sonhar vazio

é compreender as palavras

pseudo-pulsantes

dos bichinhos de porcelana.



Escrito por pepe mattos às 23h51
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Última chamada

 

(Apianni Family Tomb, in Cimitero Monumentale di Staglieno, Genoa, Italy)

(Capa do álbum Closer, da banda pós-punk Joy Division, 1980)

 

 

 

Cri cedo

nas coisas imateriais.

 

Depois veio o apego

aos fatos,

sucedâneo

dum materialismo

semi-xiita.

 

Hoje me deparo

ante um abandono

petrificado

no porvir.



Escrito por pepe mattos às 20h57
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Nosferatu

 

 

(Nosferatu, eine Symphonie des Grauens), de F.W. Murnau(1922)

 

 

 

Eu te queria

de um jeito bárbaro.

 

Mas logo veio a manhã

e com ela

a mortandade

dos meus mais impuros desejos.



Escrito por pepe mattos às 01h17
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Erro de cálculo

 

(La Reproduction interdite, René Magritte, 1937 - Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam)

 

 

Eis-me novamente

e sempre

em frente

ao espelho

 

que me olha

como se duplo

eu fosse.



Escrito por pepe mattos às 01h02
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Causa e efeito

 

(Le Penseur, Auguste Rodin, 1881 - Musée Rodin, Paris)

 

 

Não se vê

a esmo:

há sempre

uma intenção.

 

Ainda que não seja

o fim,

o meio

sempre contribui.

 

Moral da história:

sem meias-verdades

não há filosofia.



Escrito por pepe mattos às 13h33
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Verde em chamas

 

(Guernica - Picasso, 1937 - Museo Reina Sofia, Madrid)

 

 

 

Um incêndio, um vulto de coisa maior

labaredando um leito verdejante:

a floresta em sua secular sabedoria

irradia um não sei quê de dor lancinante.

 

Grandes toras, umas a outras sobrepostas,

em caminhões despedem-se da mata;

emudecidos, os sobreviventes

derramam lágrimas diluídas na fumaça.

 

Voz nenhuma ecoa entre as cinzas

e até as cigarras testemunham o silêncio:

a sombra da noite engole complacente

o deserto agora e ali disseminado.



Escrito por pepe mattos às 20h34
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Vazio

(Metamorfhosis of Narcissus, Salvador Dali, 1937, Tate Modern, London)

 

 

Sem o saber

a sombra é tudo

o que o objeto factível

desejaria ser.

 

Com o Saber

o ser humano é tudo

o que uma simples sombra

detestaria ser.

 

 



Escrito por pepe mattos às 01h47
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As tartarugas

 

(View of Fort Samson, 1885, Georges Seurat, Hermitage Museum, St. Petersburg)

 

Não, não há nada de novo.

Mesmo assim, o rumor das folhas

quando caem não é maior que o silêncio

das tartarugas no viveiro.

 

A vida se preenche de fatos.

E os fatos são sonhos arquitetados

por deuses e, depois, materializados

em nosso pífio cotidiano.

 

Uma ou outra fé temporã resvala

e é então apreendida nos oráculos

e nestes traduzida como heresia.

 

Não, não há nada de novo, repito.

O eco destas heresias não perturba

os seres minúsculos que, ignorantes

do perigo e sabedores de suas limitações

de cágados, erram pelo jardim

à mesma hora em que o ocaso ensaia

sua chegada derramando espraiamento

de bênçãos

e condolências.

 

Então, eu queria dizer saudade.

Mas, a palavra adeus ainda é um sonho

preso em eterna sonolência.

 

Estes dias transcorrem calmos.

Até a correria de meninos vindos

do campinho de lama e serragem

parece novena do Senhor Morto

sem terço e ladainha.

 

Nessa hora me vêm uma ânsia.

Mas, aí a palavra saudade

já se materializou.

 

Então, digo:

- Saudade!

 

E o poema se completa.

 

Não sem antes o murmúrio das tartarugas

chegar-me aos ouvidos como uma lança

trespassando-me o coração.



Escrito por pepe mattos às 07h05
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Ciranda dos bichos

 

I

 

Era uma borboleta

presa no colorido

do jardim vizinho.

 

Quase que me insetei também.

 

II

 

Eu fugia dos braços

obsequiosos

da rainha-mãe.

 

Não sei se abelha,

formiga ou Elisabeth.

 

Se venerasse sua realeza

entomológica

seria vassalo com prazer

e não este escrevente

de desejos mínimos.

 

III

 

Felizes os tracajás

que se guardam

das impurezas do mundo

se infiltrando

na carapuça

que lhes é própria,

como a mim

esta incerteza

entre o verso

e o universo deste.

 

IV

 

A lagarta me contou

que no tempo certo

ela se deslagartiza

e borboleteia.

 

34

Eu lhe confessei

que num tempo

sem previsão

só me é permitido

poetizar o indizível.

 

 

 

(Poesia incluída na Antologia I Prêmio Literário Livraria Asabeça de Poesias, Contos e Crônicas – 2002 (Ed. Scortecci, SP, 2003)

Poesia já postada anteriormente



Escrito por pepe mattos às 13h37
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Vago lume

 

(El sueño de la razón produce monstruos, Goya, 1797, Metropolitan Museum of Art, NYC)

 

 

Às vezes quando o limite

dos nossos sonhos é atingido

vasta fadiga nos abate

deixando-nos o amargor

disseminado feito fel.

 

Quando as paredes se fazem

de algozes vigilantes

as angústias se multiplicam

e nos fazem reféns

das sombras nos pesadelos

ressuscitadas.

 

Viver feito sombra

é o que nos resta

nesse momento

em que as asas

da escuridão

nos engole;

a voz escapa-nos

pelas frestas do que antes

era segurança,

agora tênue luz

a soçobrar nos confins

desta desvivência.



Escrito por pepe mattos às 20h07
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Soro de pedra

 

 

 

Extrair da pedra poesia

é trabalho que cria calos n’alma.

 

Mas se a expusermos

a mais tola contemplação

obteremos o bálsamo

que derrama-se de sua sombra

e com ele alento

às chagas da imperfeição.



Escrito por pepe mattos às 01h09
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Dança das coisas

 

(Charing crossing bridge, Claude Monet, 1899 - Thyssen-Bornemisza Museum, Madrid)

 

Já escutei de cigarras

que cantam no meu quintal

o aviso de que novos tempos virão.

 

A mesma cantiga

as chuvas deste inverno

despejam por sobre a cidade.

 

O fato é que cigarras e chuvas

são parte do mesmo signo:

a liturgia universal

dos que moldam num canto

o respingar das gotas do tempo.



Escrito por pepe mattos às 10h17
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