O tema a esmo

O tema a esmo
Distante som de um lugar qualquer
poderia entrar agora
nesta sala cheia de rosto díspares;
vulto nenhum foi visto nos corredores,
nem viv’alma perambulava
nos canteiros à hora
em que se retiram as luzes do dia
e se anuncia o esplendor da noite.
Eu poderia ter somente meu inamovível
e, assim mesmo, insolente banquinho
do jardim como companhia nesta noite
que me fere o sono.
Contudo, atirada na relva, a garrafa amiga
ainda guarda intacta
metade do vinho que me acende a alma.
Poe e Baudelaire brincam por entre
as plantas rasteiras que circundam a casa
fingindo espanto com as sombras deformadas
que saem das lâmpadas no sopé
dos postes laterais.
Destarte, eu ainda pertenço a mim
e a este mundo que me tem em sua redoma
de lágrimas.
Muito embora as lágrimas aqui descritas
nada mais sejam que simples palavras ao acaso.
Baixo os olhos
e os vultos parados ali a me olhar
esperam inertes que os expulse.
Já é tarde, enfim.
A festa acabou. E a noite em que me vejo assim
não é a mesma noite em que meninos e meninas
nas ruas, em suas tenras e ingênuas idades,
nada mais são que números em formulários
de pesquisa.
Onde o aviso das trombetas dos anjos que não ouvi?
Meus ouvidos entupidos de vil metal derretido nada ouvem.
E vão-se explicações sem que ninguém as peçam.
E vão-se também meus sonhos embalados
pelos acordes dissonantes
dos uivos da noite:
a mesma noite que me tem em pedra sabão esculpido.
Esta, então, é a derradeira noite
em que sentado num banco de pedra,
eu, em pedra sabão esculpido,
ponho-me a olhar o céu
que não me devolve o olhar
perdido que está em algum lugar
desta noite que me fere o sono.