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Blog do Pepê Mattos
 

Poesias



 
 

Revelação

 

 

Olhar a imagem

mil vezes embrutecida

da menina correndo

das chamas que consomem-lhe a aldeia.

 

O desespero materializado

na fotografia atinge-me em cheio

e os dedos que seguram-na tremem

nas fímbrias da manhã chuvosa.



Escrito por pepe mattos às 23h51
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Sina

(Riki Blanco)

 

Eis que sou um pássaro

cativo em não sei qual

dos teus sonhos.

 

Sou um pássaro, deliro.

 

E o destino

me aprisiona

em teus desejos.



Escrito por pepe mattos às 07h25
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Noite

 

 

Eu que me vira

em sonhos

dormitando sobre a relva

na tarde que se fechava

para a noite.

 

O sonho foi embora

como borboleta

que se desfaz

do casulo.

 

A noite me acolheu

com o lume

que d

        e

         s

          c

           i

            a

               das estrelas.



Escrito por pepe mattos às 04h09
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Epitáfio

 

Choro feito de plumas

que caem em vez de subir.

 

O que é feito do choro,

senão adubo de chão morto?

 

O amor também está morto

se já nasce fenecido,

imaterial, que nem se vê.

 

Se diz que se sente e é só.

 

E buscam palavras

que o expressem,

e fazem versos

que o encaixem.

 

No caixão do amor

não há flores,

nem plumas feito lágrimas:

 

um pedaço de papel

que os vermes ignoram.

 

11/06/97



Escrito por pepe mattos às 22h02
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O tema a esmo


O tema a esmo

 

 

Distante som de um lugar qualquer

poderia entrar agora

nesta sala cheia de rosto díspares;

vulto nenhum foi visto nos corredores,

nem viv’alma perambulava

nos canteiros à hora

em que se retiram as luzes do dia

e se anuncia o esplendor da noite.

 

Eu poderia ter somente meu inamovível

e, assim mesmo, insolente banquinho

do jardim como companhia nesta noite

que me fere o sono.

Contudo, atirada na relva, a garrafa amiga

ainda guarda intacta

metade do vinho que me acende a alma.

 

Poe e Baudelaire brincam por entre

as plantas rasteiras que circundam a casa

fingindo espanto com as sombras deformadas

que saem das lâmpadas no sopé

dos postes laterais.

 

Destarte, eu ainda pertenço a mim

e a este mundo que me tem em sua redoma

de lágrimas.

Muito embora as lágrimas aqui descritas

nada mais sejam que simples palavras ao acaso.

 

Baixo os olhos

e os vultos parados ali a me olhar

esperam inertes que os expulse.

 

Já é tarde, enfim.

A festa acabou. E a noite em que me vejo assim

não é a mesma noite em que meninos e meninas

nas ruas, em suas tenras e ingênuas idades,

nada mais são que números em formulários

de pesquisa.

 

Onde o aviso das trombetas dos anjos que não ouvi?

Meus ouvidos entupidos de vil metal derretido nada ouvem.

 

E vão-se explicações sem que ninguém as peçam.

E vão-se também meus sonhos embalados

pelos acordes dissonantes

dos uivos da noite:

a mesma noite que me tem em pedra sabão esculpido.

 

Esta, então, é a derradeira noite

em que sentado num banco de pedra,

eu, em pedra sabão esculpido,

ponho-me a olhar o céu

que não me devolve o olhar

perdido que está em algum lugar

desta noite que me fere o sono.



Escrito por pepe mattos às 21h20
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Diálogo com paredes

Um oceano de silêncio

no quadro dependurado na parede

devastando a saudade

que ficou de coisas que não fiz.

 

O vazio das palavras

mumificando o coração

semidesfigurado

que repousa solenemente

em cima de um divã destruído.

 

Breve brisa esconde meu sorriso

no espelho do corredor:

imagem trêmula de uma lágrima rija,

endurecida talvez

pela certeza de tua ausência.



Escrito por pepe mattos às 02h45
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Uma canção sobre o fim último das coisas

(Samaumeira - Fonte: Blog Repiquete)

 

O prefeito decretou a derrubada da velha samaumeira.

Homens com seus machados, máquinas com pás gigantes,

repórteres com suas equipes:

todos esperavam pôr abaixo tão incômodo empecilho do progresso.

 

A população vizinha da árvore imponente

ensaiou um protesto e emocionada fechou-a em um abraço.

Uma mãe de santo trouxe oferendas e cantorias.

Crianças chorando se agarravam às saias das mães.

 

Enquanto o prefeito, indiferente, discursava,

os homens afiavam seus reluzentes machados,

máquinas rugiam feito monstros famintos,

jornalistas buscavam o melhor ângulo.

 

Ainda que os circunvizinhos da bela árvore

permanecessem em seu abraço circundando-a

e a transida mãe-de-santo evocasse seus orixás

nada parecia amolecer o coração do Poder.

 

Não se levava em conta o valor da sombra benfazeja,

o doce aconchegar dos pássaros em seus galhos,

o mais puro ar que dela exalava,

nem a inegável contribuição à vida no planeta.

 

Apenas sobressaía das palavras do Poder

o atraso no desenvolvimento arquitetônico da cidade

e os empregos que deixavam de existir com as obras

do mais belo centro comercial já visto naquelas plagas.



Escrito por pepe mattos às 12h11
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Uma canção sobre o fim último das coisas (cont.)

 

Foi quando a noite já quase descia cobrindo tão dantesca cena,

que a chuva começou a cair impiedosamente;

prefeito, homens, jornalistas deixaram seus discursos,

machados, máquinas e equipamentos de filmagem.

 

Contudo, resistentes, feito hera que se apega ao muro

os cidadãos continuaram abraçados à samaumeira.

Raios riscavam os céus na direção dos homens

que a queriam no chão, lenha pra fogueira.

 

Na noite que se seguiu fortes ventanias

derrubaram árvores, postes de luz elétrica,

alguns prédios públicos e casas da atônita comunidade

e o desespero fez morada na alma do povo.

 

Na manhã seguinte, o prefeito baixou novo decreto

declarando de utilidade pública e patrimônio cultural

a inexpugnável samaumeira, cujo valor inestimável

a natureza e o amor desses cidadãos o fizeram ver.

 

Era um gesto tardio e desesperado:

somente a samaumeira foi poupada da fúria da natureza.

 

Prefeito, funcionários, jornalistas e os bravos cidadãos

passaram a se abrigar debaixo dos venturosos galhos da velha árvore

até que toda a cidade fosse reconstruída.

 

Todos que passam naquela Praça da Samaumeira

dedicam um momento de seu tempo para reverenciá-la;

Sabem, que um dia, a cobiça pelo progresso desmedido

quase destruía a bela e sábia árvore junto com toda a pequena cidade.

 

Do alto de sua imponente e ensolarada copa

o sol dispara raios de luz, feito bênçãos dos céus caídas.

sobre homens que num repente de insanidade e desamor

sonharam em pôr abaixo tão relevante obra da natureza.

 

070209



Escrito por pepe mattos às 12h06
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"With no memories"

visgo de hora presa no pêndulo
deste dia moribundo

meus olhos buscam paisagens
ocultas em baixo relevo

a tarde esmorece
brindando com um cinza-fôsco
o irremovível passar do tempo

estilhaços de saudade:
lamúrias beijam a tarde
que foge por entre revoadas
de aves ruidosas

 


Poesia incluída na Antologia Tempo de Poesia (Ed. Novas Letras, SP, 2003)

 



Escrito por pepe mattos às 14h38
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Seis e Meia

 

Seis e meia da noite
e a cidade é escurecida
pelo constante movimento
do planeta.

Nos postes espalhados nas calçadas
as primeiras lâmpadas
ensaiam sua coreografia
milimetricamente dormente.

O visgo da noite
engolfa com extrema similitude
o semblante ameno
dos transeuntes mais desavisados.

Ou ninguém percebeu
a vitória incontinenti da noite
ou o voraz e ilimitado frescor do sereno
já faz parte do nosso vestuário noturno.

 



Escrito por pepe mattos às 03h15
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Tisna

 

 

Trago o semblante
ligeiramente tépido
como quem sabe segredos
sobre crepitar de fogueiras
tornadas cinzas.

Meu canto
ternamente triste
apenas evoca lapsos de memória
que eu cogitei
um dia
perdidos.

Hoje, blefo com as palavras;
tento traduzir-me nelas:
ora vento, dor, ubiqüidade,
fúria, lamento, ignorância;
ora alhures busco abrigo em teu
leito, mulher,
despido, então,
de inoportuno desvario.

 



Escrito por pepe mattos às 03h05
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As distâncias do Amor

As distâncias do Amor



Estas distâncias que simulam estranhamentos e desconformidades
conseguem, com tudo aquilo que têm de concretude,
solidificar esse ímpeto que nos acomete
e nos faz reféns de um mesmo e insano sonho.

Quando te fazes de minha presa, o fazes porque algo dentro de ti,
escamoteado por desejos possíveis e outros nem tanto,
clama pelas coisas que um coração não pode suportar;
algo que teu corpo frágil de mulher cativa de um só amor anseia
e te faz perdida como se num labirinto de emoções adentrasses.

E são essas emoções que, uma vez afloradas, dão sentido
a estas linhas que me fazes perpetrar.

E se por um lado tens essa pecha de ser minha presa, em outra dimensão,
e inexoravelmente, serei o que vai em teu encalço;
de presto, meu armamento em nada lembra o poderio de hordas
sanguinárias:
antes, impregna-se de todas as vontades voluptuosas
que um amante tem pelo objeto desejado.

Balancem os ventos florestas inteiras e por terra joguem
fileiras imensas de árvores centenárias;
incêndios vultosos corram solto pelas pradarias
e destas às densas áreas verdejantes;
lavas incandescentes desçam das entranhas expostas da Terra
e se espraiem por vales, planícies e sopés das montanhas;
nada possui a extensão do que possa ser essa paixão.

Essa paixão,
que se alimenta de lembranças de fatos ainda por nascerem;
de gestos, uivos e gemidos presos num tempo enjaulado em
nossas vontades;
 de circunstâncias, enfim, nas quais ainda
não temos completo domínio;

Essa paixão,
que nada mais é que um fruto esperando ser colhido no pomar
incerto de sonhos sonhados a dois.

Essa paixão,
nosso maior crime e cuja pena capital a nós imputada
é a imediata e avassaladora união física de nossos corpos,
inda que períodos de tempo e dimensões de espaço a inviabilize.

Essa paixão é a nossa tábua única de salvação nos redemoinhos
vorazes das insolvências;

Essa paixão a nada, nem a ninguém mais pertence.

É tua, mulher sonhadora!
É minha, poeta errante,
unidos pelos sonhos e pelas vontades que ignoram circunstâncias mensuráveis.


28/11/08
(Durante aula do curso de Ferramentas da Qualidade)


 



Escrito por pepe mattos às 23h34
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Tradução

 

Todas as noites

cavalga uma dama sem nome

sob o clarão de uma lua nua.

 

Não somente sua aura reluz

e suas mãos seguram firmes

as rédeas do fogoso animal.

 

Atravessa a floresta

e no caminho já percorrido

pousa uma serena incandescência.

 

Cometas riscam os céus

anunciando a passagem

da bela e anônima dama.

 

E na madrugada um galo

algures canta

seu canto que despe a noite.

 

 

1995



Escrito por pepe mattos às 21h04
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Tanto quanto um abrir de janelas...

Tanto quanto um abrir de janelas
em meio à tempestade

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Eriçar os pelos dos sonhos natimortos...

Estes, inda que não lhes reste um pouco de luz,
em tudo estão vivos;
porque resplandece sempre um átimo daquilo
que sei ser vida.

E...

Por entre devaneios que me chegam
feito sonhos entrelaçados, um pedido:
que não se faça silêncio enquanto
grassam as mentiras tidas como verdades!

Porque silêncio bom é quando vem no rastro
dos passos perdidos do Poeta
na direção do Ocaso.

Mesmo que não exista mais trapiche,
mesmo que dêem por esquecido um bonde solitário
por sobre os trilhos enferrujados, sempre haverá viajantes...

E ir e chegar são direitos inalienáveis...

Onde o sol descansa, lá descansa meus olhos...
Onde a música pára, ali minha lida tem morada...

Mas, meio que apressado para não perder o último ônibus,
me despeço...

Nenhum aceno, nenhum som de voz entrecortado...

Só este olhar e um pedido mudo de coragem...

Poesia, brada teu grito forte!


24/09/08



Escrito por pepe mattos às 09h09
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A sombra sobre o rio

"Sem avisar nada, ela chegou. E se dizia maior que 'aquele rio de nada em frente à cidade'.

Ela se dizia.

O povo simples da comunidade e de outras mais distantes acorreu à capital assim que soube de sua chegada.

O povo acorreu.

Trazia, em vez de esperança, uma inexplicável subserviência, sem perceber que essa condição era um mergulho no vazio.

Esperança no vazio.

Os Arautos dessa subserviência conclamavam o povo a se prostrar às palavras da Sombra e eles mesmos se curvavam ante sua presença.

Eles se curvavam.

O povo angustiado pela falta do mais básico dos direitos do Homem acreditou nos arautos que serviam à Sombra.

O povo acreditou.

E proclamou todos os escolhidos pela Sombra como seus novos e sempiternos senhores.

Eles proclamaram.

Então, o Rio entristecido pela aridez das idéias dos Proclamados secou e um deserto dominou a paisagem pelo mesmo tempo que durou a permanência da Sombra.

O rio secou..."



Escrito por pepe mattos às 01h45
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